domingo, 3 de janeiro de 2010

it ends tonight

Chega hoje ao fim um período de ausência.
De futebol.
Mas, se "a ausência é um estar em mim", citando Drummond, é a falta que me atormenta.
E como senti falta do Benfica, nestas festas...
De qualquer Benfica.
Do diplomaticamente ineficaz de Quique.
Do brutalmente dominador de Jesus.
Ou do Benfica assim-assim, que por vezes nos sai em rifa.
Porque foi uma ano completo, este.
Em que vivemos a decepção que julgávamos crónica.
Em que nos entusiasmámos com um Benfica que já não julgávamos possível.
E que entre esses dois estados permitiu o equilíbrio.
Equilíbrio que sobreviveu a Olhão e ao Porto, na Luz.
Mas que não resistiu à primeira rabanada.
Tentei de tudo. Ver jogos repetidos na BenficaTV.
Procurei desesperadamente no cabo qualquer coisa que envolvesse 22 homens e uma bola.
Sem sucesso.
Cada tentativa só serviu para aumentar a saudade de ver o Benfica jogar.
Acaba hoje, a saudade.
Corra como correr o jogo na Luz.


Senhora da Hora, 3 de Janeiro de 2010

(para a Sofia)

domingo, 6 de dezembro de 2009

Cabidela

Começou como começam as grandes histórias, por acaso.
Começou com uma qualquer conversa, no intervalo de um curso em horário pós-laboral.
Precisavam de um keeper, comentou um colega.
Na Maia, aos Sábados à tarde.
O campo, um verdadeiro 20x40, com relvado sintético de última geração.
Irrecusável convite para uma hora de prazer.
Assim foi. Um punhado de jogos interessantes e umas tardes de Sábado bem passadas.
E um encontro feliz com um jogador de futebol. Quem joga sabe que se criam empatias inexplicáveis dentro de campo. Que se estabelecem ligações privilegiadas. Que há jogadores com quem jogamos até de olhos fechados.
Por isso, quando me disse que jogava também às segundas-feiras à noite, no mesmo campo, e que precisavam de um keeper, a minha resposta foi óbvia.
Nunca recuso um convite para uma hora de prazer intenso...
E era realmente disso que se tratava. Uma hora de jogo com um ritmo insano.
Com um espírito competitivo exacerbado.
Como da final da Champions se tratasse.
Loucos gloriosos, a jogar futebol do melhor.
Que com frequência se tornavam o centro das atenções.
Nos períodos de ouro, até os jogadores do campo ao lado paravam para observar.
Era Champions League, com toda a propriedade.
Encontrei ali o jogador mais criativo e divertido que vi jogar.
Surpreendi-me com o empenho e fôlego infindáveis.
Sofri com o mais venenoso pé esquerdo de que me lembro.
Ri-me com os mais desconcertantes golos.
Deleitei-me com o jogo de equipa.
Foram tempos áureos, esses.
Jogos míticos, que recordamos até hoje.
Mas tudo na vida tem um fim.
E as lesões precipitaram esse fim.
Se à primeira lesão grave as segundas-feiras ficaram mais tristes, à segunda terminaram.
Essa segunda lesão que materializou o maior receio de todos.
A mesa de operações e o fim definitivo do futebol.
Os jogos continuaram por mais alguns meses.
Mas foi apenas o prolongar a agonia.
Hoje resta apenas a saudade.
E um jantar anual, em volta de um arroz de cabidela, de 6 ou 7 jogadores que se encontravam para jogar futebol, às segundas-feiras.
Os melhores que conheci.

Senhora da Hora, 6 de Dezembro de 2009

sábado, 5 de dezembro de 2009

de pantufas

Fui traído pelas minhas palavras de cronista de trazer por casa.
Não pretendia em caso algum denotar resignação, com a crónica do Larouco.
E muito menos baixar os braços.
Não os baixei nas longas travessias do deserto com que o Glorioso me presenteia frequentemente.
Não desisiti do Atlético quando uma impensável descida à Série B se abateu sobre BH.
Não deixei de acreditar no América, mesmo vegetando na ridícula Série C do Brasileirão.
Não deixei de confiar no Benfica, por causa de dois resultados pontuais.
Reafirmo: O Benfica vai ser campeão.
Confio cegamente nisso.
Mas sou realista.
Tudo na vida tem seu ciclo. O Benfica de Jesus não é excepção.
Depois de um exuberante Outono, é normal que venha a míngua do Inverno.
Que o frio entorpeça as ideias da equipa.
Que a geada congele a imaginação dos criativos.
Que o vento fustigue o entusiasmo dos jogadores.
Espero que Jesus saiba disso.
E espero que saiba, sobretudo, usar a reserva de motivação amealhada nas goleadas passadas.
Para que se possa passar incólume pelo Inverno.
Porque voltará o entusiasmo da Primavera.
As goleadas voltarão lá para Março.
Encaremos pois a estação que se avizinha.
Mas, antes das rabanadas, é importante um último esforço.
Uma última folha de Outono
Que se vença o Porto.
Sem dúvidas e com categoria.
Depois, que venham as pantufas e a lareira.

Senhora da Hora, 5 de Dezembro de 2009

domingo, 29 de novembro de 2009

o vento do Larouco

Lá fora, ouve-se o silvo da carvalhinha.
O vento do Larouco deixa adivinhar uma noite de frio e de neve, talvez.
Esperava pois, que o jogo de Alvalade servisse para aquecer a noite.
Cedo percebi, no entanto, que dali nada de glorioso resultaria.
O ponto alto do dia tive-o na Adega Faustino em Chaves. Daí até Montalegre seria sempre a descer...
Porque o Benfica hibernou.
Adormeceu, tornou-se chato.
Depois do Outono exuberante e dourado, a vizinhança do Inverno faz tremer a equipa.
Que parece preferir o recato do lar à fria noite do estádio.
O Benfica adormeceu, tornou-se chato.
Joga desgarrado, sem alma e sem vontade.
A espaços observam-se lampejos de paixão. A espaços.
Mas não chega.
Não chegou no passado Domingo.
Não teria chegado hoje, tivesse por adversário o Guimarães.
Felizmente era o Sporting...

Montalegre, 28 de Novembro de 2009

sábado, 21 de novembro de 2009

South Africa

Acredito num bom mundial.
Digo-o agora, com as ideias claras.
Antes da euforia se instalar neste cantinho da Europa.
Antes de ver bandeiras em toda a parte.
Antes de os jornais se pintarem com as cores nacionais.
Antes de os Black Eyed Peas invadirem as rádios.
Digo-o depois de ter encarado o play-off com indiferença.
Depois de ter perdido o entusiasmo de ver Portugal jogar.
Depois de esquecer os nomes dos titulares.
Depois de ter remetido a minha camisola nº 10 ao fundo da gaveta.
Mas digo-o convicto.
Porque, antes de o marasmo se instalar, lembro-me de um jogo fantástico com a Dinamarca, na Luz.
Um jogo digno de qualquer fase final de um mundial.
E porque depois de a indiferença de mim se apossar, vi um jogo pragmático e inteligente.
Em Zenica, sob condições terríveis.
E, esses dois momentos, discretos como devem ser todos os momentos de revelação, mostraram que a Selecção sabe jogar.
De peito aberto, mas também de coração fechado.
Apaixonada quando necessário, cínicamente controladora quando exigido.
Contagiada pelo público se este o merece, de costas para as bancadas quando o recato se impõe. 
Que se mantenha assim.
Que saiba vestir o fato de gala ou o macacão.
E que ambos lhe fiquem bem.
Queira a sorte que a mão de Henry não nos saia na rifa, e faremos um bom mundial.


Matosinhos, 20 de Novembro de 2009

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Enke

Soube-o quando cheguei a casa, depois do futebol.
Li a notícia pouco depois de ter tirado as luvas de guarda-redes.
Ironia.
Desapareceu um dos responsáveis por, ainda hoje, quase nos 40, continuar a sair de casa à noite, debaixo de chuva e frio para uma hora de prazer, defendendo uma baliza.
Porque o gozo imenso e inexplicável que tenho dentro do campo é indissociável do prazer enorme que sentia ao ver homens como Preud'Homme e Enke jogar.
Também Baía, Buffon, ou mesmo Ricardo.
Mas Preud'Homme e Enke terão sempre o seu lugar especial. De lendas.
Robert Enke morreu ontem.
Desapareceu, esmagado por uma vida sofrida.
Que ninguém o julgue pelo seu acto.
Mas que o recorde pelo que de melhor fez.


Pedro Rui
Porto, 11 de Novembro de 2009

sábado, 7 de novembro de 2009

ode ao Leão

Depois de inúmeras hesitações, depois de alguns esboços condenados à gaveta, resolvi finalmente versar sobre o Sporting.
Poderia ter escrito "o rival da segunda circular", mas não é assim que o sinto hoje.
O Sporting de hoje não é rival.
Não me desperta ódio, raiva ou sequer irritação.
Desperta-me simpatia e compaixão.
E não é isso o futebol.
Acolheram o nosso João Pinto, e odiei-os.
Tiveram o Jardel e desesperei.
Roubaram o Paulo Sousa e insultei-os com todas as minhas forças.
Hoje resta a sensatez de Liedson, a dignidade de Paulo Bento.
A resignação dos Sportinguistas e a minha compaixão.
Não é isso o futebol.
Futebol é o ódio, crónico e eterno que nutro pelo Porto.
É a indignação que o Boavista de Jaime Pacheco e dos Loureiro provocou.
É olhar de lado para os Bracarenses de hoje...
E não a simpatia condescendente que o Sporting me desperta
Futebol é chamar "mariconço" ao Jesualdo.
Pôr em causa a orientação sexual do Baía ou chamar "Mónica" ao Fernando Couto.
Ou até bailarina ao César Peixoto.
Para Polga, Pedro Barbosa e Paulo Bento pouco sobra.
Apenas condescendência e uma pontinha de simpatia.
Não é isso o futebol.
Por isso, meus senhores, façam o favor de mudar.
Mintam, que é o único que vos resta.
Digam que os 12 pontos são recuperáveis. 
Que o título ainda é possível.
Que a Liga Europa é para ganhar.
Percam tudo. Terminem em 4 ou 5º, pouco me importa.
Mas irritem-me, por favor...


Pedro Rui
Porto, 7 de Novembro de 2009